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Excelência com Equidade - Os desafios dos anos finais do ensino fundamental - Clique e saiba mais

Apresentação

Em 2012, a Fundação Lemann, em parceria com o Itaú BBA, lançou o estudo Excelência com Equidade . Em dezembro desse ano, foi lançado o estudo qualitativo do trabalho, enquanto, em setembro de 2014, foi lançado o estudo quantitativo. O objetivo dos estudos é mostrar as características comuns e as lições de escolas que, mesmo em condições adversas, conseguem garantir o aprendizado dos alunos.

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As 215 Escolas de Excelência

Foram encontradas pelo estudo 215 escolas públicas que atendem alunos de baixo nível socioeconômico e que garantem o aprendizado de seus alunos. Essas escolas passaram pelos seguintes critérios:

  • Na média, alunos de nível socioeconômico baixo. A partir deste critério, as escolas foram divididas em sete categorias, e apenas as que estavam nas categorias muito baixo, baixo, médio baixo e médio foram consideradas;
  • Pelo menos 70% dos alunos com nível adequado em matemática e em língua portuguesa*;
  • Máximo de 5% dos alunos no nível insuficiente em matemática e em língua portuguesa**;
  • Taxa de participação de pelo menos 70% nas avaliações de matemática e língua portuguesa, no 5º ano;
  • Evolução no Ideb de 2007 para 2009 e de 2009 para 2011;
  • Um Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) mínimo, em 2011, de 6,0.

* pontuação na Prova Brasil maior ou igual a 225 pontos
em matemática e maior ou igual a 200 pontos em língua portuguesa

** pontuação na Prova Brasil menor que 175 pontos e menor que
150 pontos em língua portuguesa

As 6 escolas estudadas

Das 215 escolas, seis foram escolhidas para visitas e uma análise detalhada das práticas e estratégias utilizadas na garantia de um aprendizado de qualidade para alunos de baixo nível socioeconômico. Abaixo as escolas visitadas na pesquisa:

Boas práticas

O que fazem as escolas que alcançaram Excelência com Equidade

  • Definir metas e ter claro
    o que se quer alcançar

    "Uma ação importante foi deixar claro quais eram as metas a serem alcançadas. A educação no Brasil sempre foi muito subjetiva e nós aqui tentamos transformar a subjetividade em algo objetivo. Temos metas claras e todas elas são voltadas para a aprendizagem das crianças. E esse é o nosso foco." – Secretário de Educação

  • Acompanhar de perto - e continuamente - o aprendizado dos alunos

    "Quando é feita uma avaliação, essas são corrigidas e comentadas em sala de aula. A gente analisa, fala com o aluno, procura saber qual é o motivo para resolver as dificuldades. O nosso trabalho é todo dia, é corpo a corpo, uma dedicação diária." – Professor

  • Usar dados sobre o aprendizado para embasar ações pedagógicas

    "Pelos resultados dos alunos nas avaliações, eu vejo se tem um professor que não está indo bem. Então, eu converso com o coordenador para saber o que está acontecendo e chamo o professor para a gente conversar. Depois, ele vai ter que me dizer o que vai fazer para melhorar o resultado da avaliação." – Diretor

  • Fazer da escola um lugar agradável e propício ao aprendizado

    "A gente faz visita em casa, a gente vai olhar como eles estão. Geralmente a gente percebe que quando a criança falta é porque está sozinha em casa e a gente tem que buscar uma solução para aquilo. A gente não se preocupa com o problema, a gente quer é buscar uma solução." - Diretor

Estratégias chave

Como garantem o sucesso na implementação de mudanças

  • Criar um fluxo aberto e transparente de comunicação

    "Antes de trabalhar nessa escola, eu lecionava em uma primeira série com 50 alunos. Tinha uma supervisora que vinha uma vez por mês, sentava no fundo da sala e só anotava o que eu fazia de errado. Não me falava o que eu fazia de errado. Não me falava o que eu fazia de certo. Só passava depois pra Secretaria de Educação, que me chamava e falava: ‘Olha você está fazendo isso errado’. E não me diziam como eu tinha que fazer. Aí eu não quis ficar. Falei: ‘Se for assim a educação, eu não quero’." – Professor

  • Respeitar a experiência do professor e apoiá-lo em seu trabalho

    "Não tiramos um professor que tem problemas na escola. Nós conversamos com ele, a equipe pedagógica vai até lá, conversa com o diretor e tenta resolver ali. Até porque, se o professor tem dificuldade, ele precisa sanar a dificuldade ali. Simplesmente levar para outra escola não vai resolver." – Secretário de Educação

  • Enfrentar resistências com o apoio de grupos comprometidos

    "Eu estou sempre tentando motivar as minhas outras colegas, porque se a gente se desmotivar, vai cruzar os braços e será muito pior. Se surge algum tipo de desmotivação a gente percebe e sempre tenta ajudar a outra. A gente conversa, faz uma piada, sempre tenta auxiliar." – Professor

  • Ganhar o apoio de atores de fora da escola

    "Eu sempre gosto de chegar cedo, receber os pais no portão e conversar com eles, tanto na entrada como na saída. Com o tempo você vai ganhando certa intimidade e isso é importante, porque os pais vão ver que você se importa com os filhos deles e sentem que você está preocupado com eles também. Eu acho que isso foi uma coisa que me ajudou muito. E meus coordenadores fazem a mesma coisa." – Diretor

Conclusões do estudo

A comunidade escolar

Com foco no entendimento do que fazem, afinal, as escolas bem-sucedidas, nossas visitas foram guiadas por pessoas da comunidade escolar. Cada participante – seja educador, aluno ou funcionário – contribuiu para que tivéssemos uma visão bastante clara do diferencial dessas escolas e conseguíssemos entender como elas conseguem ensinar todos os alunos independentemente das condições socioeconômicas, tão comumente usadas para justificar os problemas no aprendizado.

Cuidado com a implementação

Ao longo do estudo, um dos componentes para o sucesso destas escolas ficou muito claro: o cuidado com a implementação. Ele é tão importante quanto as práticas que a escola escolhe implementar.

Algo que apareceu com destaque, por exemplo, foi a atenção dada pelas escolas à maneira de comunicar as mudanças para as equipes escolares e demais pessoas chave no processo educacional, buscando sempre um fluxo aberto e transparente de informações. Pelas entrevistas isso parece ser ainda mais decisivo quando se trata de uma rede escolar. Para que novas políticas façam sentido para os profissionais que irão implementá-las, elas precisam ainda respeitar o conhecimento desses profissionais.

Enfrentar resistências

Outro achado do estudo é que fez muita diferença para o sucesso destas escolas saber enfrentar resistências ao longo do processo de mudanças. Formar um grupo comprometido com as iniciativas e implementação das mesmas mostrou-se essencial para fazer nascer na escola uma cultura em que todos estão motivados e focados na reforma. No entanto, não estamos necessariamente falando de grandes líderes – o importante é haver pessoas que motivem e puxem em suas escolas um processo de mudança. Quando falamos de redes escolares, o comprometimento do prefeito também se mostrou essencial para o sucesso.

Boas Práticas

Seguindo cuidadosamente essas estratégias na adoção das políticas, as escolas deste estudo implementaram as práticas que resultaram nos bons resultados. Primeiro, o trabalho passou a ser orientado por objetivos com foco no aprendizado do aluno, em um modelo no qual o cumprimento das metas traz um reconhecimento financeiro – mas também prestígio e valorização – para os profissionais da escola.

O acompanhamento contínuo, não deixando nenhum aluno ficar para trás, é outra prática presente em todas as escolas analisadas. Isso pressupõe uma avaliação constante, que indique como está o nível de aprendizado dos alunos e também que aponte quais são as deficiências, dadas as expectativas de aprendizagem atribuídas pela escola.

Também verificou-se que, a partir das metas e do acompanhamento contínuo, essas escolas puderam embasar suas ações pedagógicas em dados e informações sobre o aprendizado. Estratégias para garantir a frequência e o aprendizado dos alunos foram definidas. O reforço escolar e as formações continuadas passaram a atender necessidades específicas, o que foi essencial para que a equidade pudesse ser promovida.

Por fim, foi essencial para estas escolas investir no clima escolar. É muito difícil os alunos aprenderem o esperado pela Prova Brasil e os professores conseguirem tirar o melhor de seus alunos se eles não se sentem bem na escola. E, além de fazer alunos e profissionais se sentirem bem, estas escolas souberam lidar com todo o contexto familiar do aluno e do próprio entorno da escola.

A boa notícia: é possível

Uma boa notícia trazida por este estudo é que dá para alcançar indicadores de aprendizado muito bons, mesmo sem acertar em tudo. As escolas que visitamos garantiram o aprendizado de seus alunos ainda que não tenham conseguido ser exemplar em todos os aspectos. Há, por exemplo, desafios claros nas salas de aula dessas escolas em relação ao uso eficiente do tempo e à individualização do ensino – melhorias que permitiriam que a promoção da equidade fosse garantida dentro das aulas obrigatórias, o que hoje ocorre com o recurso das aulas de reforço e aprofundamento. No entanto, ao melhorar em pontos-chave e estratégicos para o aprendizado dos alunos, essas escolas conseguiram se destacar e garantir que todos conseguissem avançar.

A má notícia: baixa qualidade nos anos finais

Mas existe também uma má notícia, que merece atenção. Em muitos dos municípios que contam com boas escolas nos anos iniciais do Ensino Fundamental não existem escolas que ofereçam a mesma qualidade nos anos finais, muitas vezes por não haver parceria entre a rede municipal e a rede estadual. Em outros casos, o problema é a descontinuidade de ações importantes quando uma nova gestão assume (ou até mesmo a não sinalização da manutenção das políticas durante a transição – o que gera uma incerteza prejudicial entre os profissionais da rede).

O que fazer agora?

Tanto em relação à boa notícia quanto à má notícia, existe um papel muito claro que pode ser feito por todos: no primeiro caso, sabendo que dá pra fazer e conhecendo boas práticas, exigir dos gestores públicos políticas que garantam que mais escolas e redes consigam êxito; no segundo caso, acompanhar de perto o andamento de escolas e redes que já apresentam hoje um bom resultado, cobrando o compromisso com a manutenção das boas práticas e uma colaboração entre as redes para que os alunos possam concluir a Educação Básica com um aprendizado adequado.

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